Porque apoio e voto no Tarso e na Dilma

 

       Na política, como em todas as categorias da vida, há um fator importante que se chama confiança. De fato, a qualidade de convivência é uma função de confiabilidade que reconhecemos nas pessoas com quem nos relacionamos. A confiança não é uma aposta sem reservas, exige maturidade, compreensão, análise crítica em razão de que, fora isso, se transforma em alienação ou adesão incondicional, que pode ser gratificante para alguns, mas quase é sempre o anúncio de algo pior! O candidato Aécio Neves, do PSDB, diz que é contra a reeleição, mas em nenhum momento, fala que levará o assunto para o Congresso Nacional. Faz uma promessa genérica, consciente de que não poderá cumprir, pois isso teria que vir dentro de um projeto de reforma política que o Congresso foi incapaz de fazer. Se houver algo sobre a reeleição, vai haver também sobre outras coisas. Será um pacote. Está falando desse assunto porque sabe que não depende dele. Portanto, mente ao eleitor! Como se não bastasse, vende o fim do instituto da reeleição como se fosse a solução de todos os vícios aos nossos problemas políticos e institucionais.

       Aécio Neves tem uma visão bastante limitada sobre democracia. A democracia não é só votar a cada quatro anos. Ela exige uma forma de governar para sua plena efetividade e qualidade, uma alta participação e implicação cidadã nos assuntos públicos; um sistema eleitoral suficientemente representativo, uma população informada que conheça as políticas existentes, as alternativas possíveis e suas previsíveis consequências; uma sociedade sem desigualdades lacerantes e sem exclusão social; um respeito escrupuloso à lei e, finalmente, um eleitorado que controla a agenda do sistema e do governo. Considerando esses requisitos e muito afastada está a ideia dos tucanos sobre esses temas, que faz a diferença entre o PSDB e o PT pela luta da qualidade democrática. A luta pela qualidade democrática é e tem sido agenda do PT , quer seja em nível nacional quer seja no Rio Grande do Sul.

         Foi no governo do PSDB de Aécio e do PMDB de Sartori, que tivemos um forte aumento da desigualdade social, através de políticas que favorecem 1% da população. Uma sociedade fundada na desigualdade gera níveis de desconfiança enormes e com isso destrói os fundamentos de convivência, desenvolvimento econômico e social. Uma sociedade fundada na desigualdade é uma sociedade onde o nível de saúde diminuí e a qualidade de vida deteriora. Onde a perda de coesão social favorece a corrupção e a fraude, onde a cultura da legalidade sofre enormes perdas. Resumindo, a desigualdade atenta contra a qualidade democrática de forma direta e impactante. Dirigentes ilustres como no caso do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que insulta os professores, é sinal inequívoco de que não entende nada sobre o aperfeiçoamento democrático que é a base importante e cultural para a democracia. O candidato Aécio que coloniza os jornalistas mineiros para fazer campanha para ele e impõe gente “militante” no veículo de televisão, não pode crer em peso e contrapeso da democracia representativa. Um governo como de FHC que recortou investimentos no orçamento para educação e saúde não pode crer numa cidadania ilustrada e capaz de eleger com rigor e razoabilidade seu próprio destino. Diante desse modelo excludente, é que apoio e voto no PT para continuar reforçando a aposta estratégica pela regeneração democrática, redução da desigualdade e descolonização das instituições que buscam cercear a liberdade de imprensa como sucedeu em Minas Gerais. A qualidade democrática é um projeto apaixonante que nos exige rigor, coerência e inovação. Conclamo a toda sociedade brasileira a vigiar este compromisso e exigir seu cumprimento. A gestão do PT tem demonstrado esta visão plural e democrática e avançado em conquistas nesta direção. Por tudo que escrevi, que apoio e justifico o meu voto no PT.

Oposição não apresenta novidade no front

            O debate político no Brasil está cada vez mais pobre e a oposição leva essa responsabilidade. Dentro do meu ponto de vista, as debilidades mais graves são a pobreza e a preguiça de criar propostas alternativas aos desafios que estão aí. Há uma dificuldade de introduzir outras visões que permitam novas soluções. Não faltam exemplos dessa dificuldade: redução de cargos em comissão, defendida por Ana Amélia, do PP, como se isso fosse a solução dos problemas econômicos no Rio Grande do Sul ou reduzir os ministérios, que Aécio Neves, do PSDB, propõe. Ou Marina, que fala em acabar com a reeleição, que é uma herança do PSDB, de FHC, fosse o problema da política brasileira. Não abordam o que tem que ser dito: o financiamento de campanha. Os candidatos ignoram em modificar o atual sistema político brasileiro que está esclerosado! A política da oposição pensa como vê. Vê curto, pouco e nublado. Curto em razão que a maioria dos problemas reclamam solução a médio e a longo prazo. Pouco, frente à complexidade que obriga a possuir uma visão de 360 graus. Nublado, quando os desafios que existem precisam mais do que nunca, claridade, precisão e nitidez.

        Ver e conhecer. Compreendemos quando vemos. Sem mapa mental não há um estudo que entenda o social. Sem mapa mental, não há bússola. Portanto, há anos que a oposição esta perdida! A oposição não somente necessita de um brio renovador, como necessita de pensamento e reflexão para compreender e entender as mudanças que se produziram na sociedade brasileira e no eleitorado progressista.

       A conversa deveria ser uma disciplina nas escolas. Os debates deveriam ser cobrados em provas. A cultura do debate e da argumentação são um déficit crônico e crítico do nosso sistema educativo. O formato do debate eleitoral é um sintoma da deterioração da palavra. Portanto, deterioração do debate político. Não contribui em mobilizar o eleitorado que mostra alarmantes sinais de cansaço e desinteresse. Somada a dúvidas profundas, essa campanha eleitoral que decidirá o futuro político dos próximos quatro anos está cravada no paradoxo do passado, com suas heranças e suas marcas. Quem pode falar do futuro? Quem tem autoridade para fazer? O debate na televisão, até aqui, tem sido um ajuste de contas, onde as propostas são substituídas pela crítica. Ganhará quem recordar mais para os eleitores e culpar os adversários dos erros do passado mais ou menos imediato? O debate deveria permitir dizer a verdade ao cidadão sobre o nosso sistema político e as suas consequências nefastas para o processo democrático. Explicar o porquê é importante, assim como modificar o financiamento de campanha. Vamos fazer o debate sério, por favor, o Brasil e o nosso futuro merecem!

Reflexão sobre a democracia

     Deixe-me começar com o óbvio: todo o sistema político é um sistema de controle social e enquadramento da população. O regime democrático também, mas de outra forma. Para começar, a população se chama  cidadania e os cidadãos são os atores político. O sistema democrático reconhece uma série de direitos básicos, precisamente onde os cidadãos podem exercer livremente a ação política. O primeiro critério de qualidade de uma democracia é a sua capacidade para dar voz à cidadania, sem que fique o benefício de inventário. A voz pode ser limitada de duas maneiras: restrições legais  e da hegemonia ideológica e cultural (o impensável, já que o pensamento dominante impera em um momento dado).

A democracia de alguns países, como por exemplo, da Europa está se fechando progressivamente  desde que nasceu. E, especialmente, uma vez que a política tem vindo a perder a autonomia da economia e impôs a idéia de que os governos não têm escolha a não ser cumprir as orientações dos peritos designados. Thomas Piketty, autor de O Capital, no século XXI, escrito em um acesso de otimismo, afirma que “felizmente a democracia nunca será substituído pela República dos peritos. “Na verdade, deveria ser, porque se a palavra é restrita a poucos, subjugada pelos interesses econômicos do mais forte, a democracia deixa de ser. E, no entanto, ao ver o empenho com que nossos líderes fazem o  discurso direcionado que não há alternativa, acho que só a partir de um forte impulso cidadão se pode impedir que a democracia esteja definitivamente seqüestrada pela voz poderosa de alguns poucos.

Se a resposta da política econômica para o desconforto de cidadãos está nos limites dos especialistas em direito ( “não pode fazer mais do que aquilo que é feito”), na política institucional , a resposta, por exemplo, do Congresso Nacional brasileiro para o pedido de referendum para a mudança do sistema político foi baseada no que a lei não permite. Ou seja, em ambos os casos, a classe política foge do debate político para neutralizar um argumento técnico . “Eu não posso, por mais que quisesse. ”

Esta é uma resposta tanto para o mal-estar das desigualdades sociais, a corrupção de um sistema podre, quanto à reivindicação de melhores serviços, mobilidade urbana e uma política de urbanismo. E, no entanto , é óbvio que em ambos os casos eles não querem. Democracia restritiva começa no momento em que a lei, que sempre tem um caráter instrumental torna-se assim. O fundamentalismo constitucional da oposição é uma inversão da democracia, porque o fim não é a lei, o fim é uma sociedade livre e aberta e a capacidade de dar a voz para os cidadãos a desenvolver o seu projeto pessoal e coletivo.

A lei não permite a expressão da falta de vontade de entrar no campo da política. E por isso, é surpreendente todas as incríveis insinuações de negociação política que vêm por detrás. A lei não permite um atalho: o caminho mais curto para contornar as verdadeiras razões para a rejeição. O medo de perder a batalha: os partidos de oposição e do governo, curiosamente se sentem incapazes de ganhar a votação . E a obsessão em não criar um precedente, que basicamente é o reconhecimento de que eles não são capazes de dar uma solução para o desacordo.

A deterioração da democracia não é exclusividade no Brasil, nos países da Europa também se nota (com outras matizes) e, ela mostra  neste momento de grandes mudanças  as suas limitações quanto a governança. A falta de tradição democrática em um país que viveu mais de 20 anos na ditadura militar, deixa claro no comportamento de governantes e governados, numa sociedade pouco politizada e o mito antidemocrático da maioria silenciosa (legado ideológico direto dos militares) .

Há o quadro-negro do passado que continua pesando muito: falta de cultura de serviço público, a submissão do Legislativo e do Judiciário ao Executivo, hierarquização das organizações políticas. A partir desta cultura política, a tendência é de responder as demandas aos cidadãos com tintas de autoritarismo e do desprezo. E criminalizar tudo o que põe em perigo a democracia restritiva: os movimentos sociais.

Crise da representatividade mundial

              Não são bons tempos para a democracia na percepção daqueles que ajudam a mantê-la: os votantes. Manchetes da imprensa britânica declaram que a Grã-Bretanha está submergida numa grande crise institucional, onde a confiança no governo, no parlamento e nos políticos alcançou  um mínimo histórico. A razão desta desconfiança aos políticos britânicos é simples: alguns políticos foram condenados por roubar o dinheiro dos contribuintes e os membros do Parlamento acabam de votar um aumento dos seus salários. Momento de crise econômica, como vem sofrendo a Europa nesses últimos cinco anos, se esperaria representantes democráticos que servissem ao povo. E de fato, foi feito isso?

     

       Nos Estados Unidos muitos diriam que não é feito isso. Faz umas três semanas, o presidente Barack Obama fez um discurso de Estado da União sabendo que a sua popularidade estava muito baixa. Os analistas norte-americanos estão conscientes de que o cidadão perdeu a confiança nos principais partidos, sobretudo em questões como a medida para autorizar espionagem nos correios eletrônicos e telefones por parte do Estado no país do Tio Sam. O grande problema de uma sociedade livre é que os votantes, em geral buscam alternativas, mas no complexo sistema estadunidense é difícil encontrar opções.

 

      Óbvio que um partido pequeno ou grande não pode, por si só, atingir mudanças significativas. Então, parece que a democracia está se asfixiando pela falta de alternativa. Diante dessa conjuntura, as pessoas preferem sair às ruas para verbalizar externando  seus sentimentos.

   

        Na Espanha, mais do que nos Estados Unidos e no Reino Unido, o estado espanhol  é o que mais perdeu a confiança nos políticos. A Comissão Européia revelou que a corrupção dentro da União Européia é uma prática altamente estendida e que a Espanha é o sócio europeu onde mais episódios de corrupção se produz. A corrupção sempre implica nos políticos. De acordo com as pesquisas, o índice de confiança dos espanhóis nos políticos é muito baixo dos últimos dez anos, pois a maioria dos espanhóis não gostam ou não confiam nos seus partidos e líderes políticos. Os únicos que se mantém confiáveis para a  população são os pequenos partidos políticos que nunca ocuparam o poder. Para expressar a rejeição aos partidos tradicionais, os espanhóis frequentemente expressam sua preferência por ação direta nas ruas.

   

      Na democracia, a eleição é uma garantia de  poder trocar os  representantes políticos é um pressuposto, que  na prática nunca satisfaz. Porém a grande maioria dos  votantes, têm culpa porque sistematicamente elegem as mesmas caras  para a representação política há décadas e décadas. Essa é uma debilidade do processo democrático. Pode ser ruim, mas a outra alternativa pode ser pior. A alternativa populista de levar ação nas ruas pode ser péssima e servir a tomada de processos ditatoriais e excludentes, como  o que está sucedendo na Ucrânia. Em lugar de aceitar os mecanismos de votos, os manifestantes preferem utilizar a pressão como arma. Protestar violentamente através das ruas em um país onde as eleições são livres e abertas é diretamente antidemocrático porque está calculada para excitar emoções e romper com o sistema eleitoral. A lei da rua não é um substituto convincente para a democracia. Onde se utiliza, não resolve nada e só conduz à anarquia, derramamento de sangue e governos militares impopulares. E a história, mesmo recente, está eivada de exemplos.




Causas da perda de confiança nas instituições

        Se vê nas ruas, nas redes sociais,  em mesas de bares e barbearias, que as instituições estão num  crescente descrédito, mas a indignação não é contra a política em sí. É contra quem a protagoniza, isto é, suas organizações e suas práticas. A perda da confiança aumentou o interesse pela política e na participação em mobilizações e plataformas sociais. Política sim, mas de outra maneira.

     A resistência dos próprios partidos em reconhecer essa deterioração e ter um determinado comportamento é a melhor consequência dessa má avaliação diante da população. Mas, a que se deve esse desencontro? À falta de empatia com o cidadão, principalmente na desigualdade social e má prestação dos serviços, onde a pobreza é uma variável da estatística, e à sensação de que a classe política vive num mundo à parte, que permite burlar as leis e  as regras que os demais são obrigados a cumprir; muitos privilégios (é difícil acreditar que todos somos iguais perante a lei), muita corrupção, a passividade é muito acentuada diante dela, muito patriotismo de partido (os corruptos se dividem entre nós e os outros), horas perdidas de debate no Parlamento em vez de enfrentar os problemas. Excessiva promiscuidade com o dinheiro, muitas fotos de políticos rodeados de banqueiros e empresários. Para quem governam? Ineficiência dos partidos para garantir suas tarefas principais como a representação política e a seleção de pessoas adequadas para o exercício do cargo. Incapacidade para dar sentido à política e em não apresentar projetos  que permitam  uma perspectiva de futuro e de cidadania.

       Em resumo: o cidadão não sente que faz parte dos processos de decisão. Falamos de democracia, mas estamos em uma aristocracia, em mãos de uma elite com pouco estilo. Que quer o cidadão?  Que a política esteja àserviço do povo e não de poucos,que se discuta abertamente as prioridades . E isso para a cidadania tem um nome: a crise no sistema político!


Significado da palavra oposição

    As palavras que levamos têm seus efeitos e causam obrigações. Quem tem nas costas a palavra mãe ou pai possui obrigações com seus filhos, a tia com seus sobrinhos, o neto com seus avós ou a filha com seus pais. O empresário  carrega no nome a obrigação de pagar os salários, e o trabalhador, de justificá-lo. Do mesmo modo, o jornalista deve fazer jornalismo, o construtor está obrigado a construir. Assumir que formamos parte de uma palavra equivale a que nos sintamos obrigados a desempenhar o que representamos. É o que parece acontecer com quem carrega a palavra oposição, que é obrigado a se opor.

    Se a oposição não se opussesse, se pensaria que não está a altura de ser denominada oposição? De fato, o que seria? Se a oposição não estivesse debaixo do manto da mesma se sentiria mais livre e decidida a não se opor sempre?

    Tempos atrás, não entendia determinada atitude frente a um tema que tampouco estava mal quando um  deputado dizia: “Que queres, esse é o jogo parlamentar, nós somos oposição”

     Realmente, aquela pessoa levava a palavra oposição literalmente. Ou seja, a oposição critica o que sucede e o governo cumpre o papel de elogiar a si mesmo. Traduzindo, quem está na oposição apresenta o viés negativo e quem está no poder o viés positivo.

     É aí que mora a perversidade, A idéia que cada um tem no seu lugar um léxico político que se afasta da equanimidade: se vêem incapazes de proclamar um critério próprio. O papel das palavras parece anular a individualidade ética: alguns dizem conscientemente coisas que não são justas. Prevaricam suas próprias idéias, mas não sentem. Pode prevaricar sobre as suas próprias idéias, mas não para a sua obrigação de ser coerente com a palavra que abriga. E se desculparão pelas suas incoerências. 

     Pode a oposição se opor? Claro que pode. Mas, requer que saia do seu próprio nome e desloque a outros vocábulos como “responsabilidade” ou “interesse geral” e às vezes também “questão de Estado”, que são palavras que aplicam para grandes temas.

    E que sucederia se fôssemos buscar outro nome para oposição? “Contrapeso”, “contrapoder”, “alternativa”. Talvez, obrigados pela nova palavra, seus integrantes se sentissem chamados a buscar um equilíbrio (contrapeso), frear excessos (contrapoder) e oferecer propostas concretas (alternativa).

   Se fossêmos mais audazes, chamaríamos sempre a oposição de um “grupo promissor”. Teríamos, claro, que recuperar o significado verdadeiro do verbo prometer no qual  não vale manifestar uma intenção  sem a obrigação de fazer algo. Quiçá nos tempos sombrios de hoje, a política começasse a ganhar o terreno da credibilidade!

Contra a violência de gênero, um novo enfoque masculino

       Nós homens, fomos criados para ser a parte principal do contrato . Para nunca vacilarmos em nossa carreira de provedores,  detentores legítimos do poder, sujeitos que se definem pela ação permanente. Desde cedo  insistem que devemos ser fortes, duros, aguerridos e insaciáveis. Treinados na arte da conquista e da autoridade, embora não sejam explicados os termos sexuais do contrato  para  que uma parte permaneça submetida e inclusive humilhada perante a outra.

    Desde pequenos, nos roubaram a ternura do cuidado e a aprendizagem da empatia. Em vez disso, nos empurraram a ocupar o pátio da escola para provar permanentemente a   masculinidade aos nossos pares e  lutar quando alguém ousa questioná-la. A chave é que devemos aprender a ser homens e não  mulheres. Isso significa, obviamente, humilhação e desprezo por aqueles que não respondem às expectativas de gênero ao ponto de haver os que não  se comportam  como homens e sim como neonazis .

       Nos condicionaram a  cumprir um  papel na sociedade, que é independente do papel ocupado tradicionalmente pelas mulheres. A divisão começa a quebrar quando, por força da democracia e da tenacidade do movimento feminista, as mulheres dão o salto para a cidadania e, então, o contrato  desmorona.

       O século XX foi o início desta nova era e que deve ser a aliança do século XXI para redefinir o pacto. No entanto, a realidade patriarcal permanece insistente. Dada a incorporação progressiva das mulheres no pleno exercício dos seus direitos, uma conquista que nestes tempos de crise corre o risco de paralisação e até mesmo de  reversão, muitos homens reagem enfatizando suas mandíbulas patriarcais.

        O pós-machismo, como explica o médico socialista espanhol  Miguel Lorente, que  ocupou um cargo no Ministério da Igualdade no governo de Zapatero, assume formas sutis, outras nem tanto, para demonstrar que o contexto sócio-cultural dificilmente foi removido, e muitas pessoas parecem não estar dispostas a perder os seus privilégios. Outros homens, no entanto, estão entre a confusão e a busca de uma nova identidade.

        Somos filhos de um modelo que continuou a educar-nos para cumprir o clássico papel do macho heteronormativo, mas temos gradualmente encontrado uma realidade que mostra que esse velho referencial é inútil. E  sentimos que não apenas metade da humanidade  sofre os efeitos dessa ordem, mas nós mesmos também sofremos as conseqüências negativas de um modelo de masculinidade que nos aprisiona. Entre outras coisas, ele nos obriga a provar nossa masculinidade insistentemente, entendida naturalmente a partir dos parâmetros da razão patriarcal, e renunciar às dimensões da personalidade que são mais perto do mundo tradicionalmente ocupados por mulheres.

           Por estas razões, e especialmente por causa dos dados terríveis que tem demonstrado o aumento da violência entre os adolescentes, é urgente o olhar sobre a construção da masculinidade. É necessário não só que os homens incorporem a luta militante pela igualdade e estabelecer redes e alianças com as mulheres, mas também começar a olhar criticamente através do espelho para propor  a revisão de um modelo ferido por patologias e que produz conseqüências, como  a violência, o abuso de poder, a injustiça, e finalmente a  desigualdade.

      Somente a partir de um compromisso com a masculinidade sadia  e dissidente,  que são capazes e oferecem outro referencial sobre os mais jovens, será possível avançar no sentido de um modelo de sociedade em que a ordem para compartilhar de forma uniforme o cuidado, a autoridade e a empatia, a razão e as emoções sejam o parâmetro de igualdade. Onde seremos capazes de avançar na gestão pacífica dos conflitos e reformar relações afetivas baseadas na igualdade, superando uma concepção romântica de amor, que legitima a subordinação delas e o machismo descompensado e exacerbado de quem necessita usar a violência par restaurar a ordem que controla.

       É hora, de um novo tempo, de revisão e reversão desses valores e condutas em  que os homens se posicionem de  maneira militante e pública. Convencidos de que não podemos ser democráticos se a desigualdade de gênero é a conseqüência mais terrível da  violência contra as mulheres, e afeta o cerne  do nosso sistema de liberdade. Não se trata de que sejamos culpados por todos os males, nem que fustiguemos de uma maneira improdutiva. E sim que sejamos protagonistas, onde séculos de luta para fazer com que as democracias sejam dignas desse  nome, e começarmos a rever o púlpito de onde temos a tendência de ver o mundo.

     Somente assim colocaremos as bases, entre todos e todas, para que as cifras de mulheres mortas comecem a diminuir e para que os nossos filhos e nossas filhas sejam capazes de construir relações afetivas e sexuais de autonomia e respeito. Ao não assumir esse compromisso, a luta pela igualdade continuará ancorada pela superficialidade dos discursos e na violência sobre as mulheres, e a estabelecer  o terrorismo político que questiona a autonomia e a dignidade e a metade da cidadania da raça humana.

 

Criminalidade e insegurança na América Latina

                          “O culpado não é aquele comete delito, sim quem instaura as condições para que este seja cometido”. Victor Hugo, do livro Os Miseráveis.

  O recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD, observa o progresso em termos de crescimento, emprego e redução das desigualdades. Ao mesmo tempo, porém, o relatório adverte que a criminalidade e a insegurança também cresceram dramaticamente. Um paradoxo do século XXI na América Latina, de acordo com o PNUD, realmente pode ser tão só à primeira vista. A leitura do social, político, internacional e até mesmo este crescimento, sugere uma interpretação diferente dessa alegada incoerência, bem como sobre o futuro da região e seus desafios.

       Apesar dos avanços em matéria de emprego e distribuição de renda, o modelo de crescimento econômico falhou miseravelmente em termos de mobilidade social. A baixa mobilidade social é um conjunto de dados históricos e estruturais na América Latina, um fator que não varia, mesmo quando a conjuntura econômica é favorável. Em termos de crescimento, baixa mobilidade agrava o conflito social, porque quanto mais a economia se expande, maiores as expectativas. Se eles permanecerem insatisfeitos, e tiverem em mente que a mobilidade social é mais uma aposta no futuro, aumentará a frustração social, inevitavelmente.

      Em outras palavras, na América Latina, a produção per capita pode crescer, massificar a educação superior, entretanto,  é a cor da pele e origem social, mais a banalidade do traje e último nome, que continuam a definir seu lugar na estrutura social, daí o eufemismo “boa presença” como requisito para os postos de trabalho. O constante na região é algo que a sociologia dos anos cinquenta definiu como “inconsistência de status”, uma dissonância acentuada entre demografia,  objetividade e subjetividade de prestígio e reconhecimento social. Esse contraste é tão importante hoje como sempre, o Estado se cristaliza nessas percepções (ou seja, o preconceito) sócio-cultural. Há mais dinheiro, mas a mobilidade ascendente também aumentou a frustração social. Não é de admirar, então, que o conflito social, venha resultando em violência.

     Esse coquetel é particularmente explosivo entre os jovens. Conforme demonstrado pela biologia evolutiva, o controle de agressão  entre jovens do sexo masculino tem sido um desafio para qualquer comunidade humana em todos os tempos e lugares. Esmagadoramente, o crime violento tem sido alvo de homens entre 15 e 30 anos de idade. E ser jovem neste século é ainda mais complicado na América Latina e em outros lugares. Os indignados espanhóis, brasileiros nas ruas, os ocupantes de Wall Street e aqueles que se imolou na Praça Tariq têm em comum que o desemprego abaixo de 30 é invariavelmente superior à média de suas respectivas empresas. Na América Latina, a população jovem, que é a maioria, são mais educados e melhor preparados do que os mais velhos, mas também com maior número e índice de desempregados.

     O componente urbano-regional não ajuda. A região continua a produzir desenhos complexos habitacionais urbanos com base fechada, auto-suficiente. Enclaves privados, verde e ilhas prósperas em um mar de pobreza, em que muitas vezes o contexto suburbano evoca um território ocupado. A exemplo dos assentamentos na margem ocidental do Jordão, a própria paisagem é um convite ao  olho de conflito e violência onde os mais jovens são os mais propensos a reproduzir.

     Apesar de suas raízes profundas e antigas, no entanto, é o Estado, ou seja, a sua ausência, que generaliza o crime. Se a palavra “globalização” tem algum significado (sempre foi o capitalismo global) é por isso que dizemos que os bens, serviços, pessoas, cultura e informação agora são mais móveis do que nunca, e tradicionais noções de soberania e de  formas de controle de estado são obsoletos. Às vezes, o argumento é exagerado, mas faz sentido na América Latina, especialmente porque o problema é endêmico: o Estado sempre foi fraco, frágil, falho, muitas vezes sem sucesso e, muitas vezes, capturado por grupos privados.

      Na verdade, o mapa do Estado como aparato legal e burocrático não coincide com o mapa político em quase todos os países da região. Em vastas áreas da periferia onde há a ausência do Estado são os atores privados que administram a justiça, cobram os impostos e monopolizam o uso da força, numa caricatura dele. Narcotraficantes, guerrilheiros, traficantes e contrabandistas, mais um conglomerado de todos os negócios  concorrendo com o Estado sobre o controle territorial , isto é, à soberania , e às vezes eles conseguem. Fronteiras porosas facilitam a internacionalização das atividades criminosas, o que diversifica o risco e o torna flexível. Planos como o Colômbia e afins, espalhados em outros lugares, laboratórios e tecnologia fazem o resto. A cocaína é na cozinha e é agora tão móvel como cozinheiros, só precisa de água sanitária  e um forno de microondas .

    O Estado não é somente controle social, poder coercitivo e distribuição dos recursos. Numa democracia, também deve haver a distribuição dos direitos e a construção da cidadania. Esta dimensão, no entanto, está profundamente enfraquecida. O que em conclusão, demonstra que não há paradoxo neste crescimento aliado à insegurança, exceto, que esta também será mais uma década perdida. Nos anos oitenta do século passado, foi pela crise da dívida, pela profunda recessão e a inflação indomável a vitimar os pobres. E esta década será perdida pela destruição das instituições, desperdiçando a oportunidade de usar as ferramentas de Estados ricos em recursos.

 

Jogo de espiões

   Hoje vamos analisar situações semelhantes. Hipoteticamente se coloque no lugar de um chefe de governo. O diretor de seu serviço de inteligência o visita para pedir-lhe que tome  certas decisões. É a simulação  de duas situações inventadas por mim e que provavelmente nunca teriam acontecido.

 » Primeira simulação: Roma, no final de 2008 . O diretor da AISE (Agência de Segurança da Informação Italiano Sistema de Inteligência Estrangeira) informa que seus técnicos penetraram nos sistemas de  Moamar Cadaffi  e seus principais assessores de comunicação,e lhe  pede permissão para monitorar as chamadas telefônicas. “Mas a Líbia é nossa aliada!” Você responde com indignação. “Em agosto passado assinamos com Caddafi o Tratado de Amizade, Parceria e Cooperação, e devido a isso, a Líbia colocou mais de 40 mil milhões de euros na Itália, se tornando  o quinto maior investidor no nosso mercado de ações e ainda investe dinheiro no Juventus. Além disso,  os líbios também estão empenhados em ajudar a controlar os imigrantes ilegais que deixam a sua costa.”

    Então, o chefe da AISE, um general, olha para você e lhe dá uma volumosa pasta com documentos que comprovam que o Governo líbio teceu uma rede de milícias sangrentas que operam em diferentes países da África e têm agentes em toda a Europa, incluindo a Itália . “Vocês sabem que Caddafi é muito volátil “, diz o general. “Hoje é nosso aliado, mas amanhã pode não ser, e se isso acontecer, é nosso dever  saber o que ele está planejando. Nós não podemos correr o risco de que, quando suas ações estejam em conflito com os nossos interesses e nossa segurança nacional, nos informemos através dos jornais . Devemos ser tão pragmáticos como os espanhóis. Eles são aliados de Marrocos e não passa um dia sem que um de seus ministros enfatizem a amizade entre os dois países. Mas não há nenhuma conversa telefônica do rei ou de seus ministros que não ouçam os espiões espanhóis, e o mesmo fazem os franceses”. A reunião acaba, você  agradece ao diretor da AISE  e diz que em breve fará saber a sua decisão.  Decida você!!

 Segunda simulação: Berlim, 2012. Você é Angela Merkel e está considerando fornecer financiamento para o resgate de Chipre. Grandes bancos deste pequeno país estão afundando e ameaçam arrastar a economia cipriota e contagiar os países já debilitados dos países do sul da Europa. A decisão parece óbvia: temos que reforçar esses bancos e evitar outro choque financeiro na Europa. Obviamente, até que o presidente da Bundesnachrichtendienst (BND, a agência de inteligência alemã) dá um relatório detalhado mostrando que os russos têm depósitos nesses bancos avaliados em 26,000 bilhões de euros, valor maior do que o tamanho da economia de Chipre.

 O problema, diz o chefe do BND, é que muitas dessas contas pertencem a grupos criminosos russos, muitos dos quais têm laços com o Kremlin ao mais alto nível. “Resgatando desses bancos é como resgatar a máfia russa e seus cúmplices no governo”,  diz ele . “Quão confiável é a sua informação? ” Você pergunta . “Completamente “, diz o chefe do BND,  pois compreender as ligações entre oligarcas russos, o crime organizado e o Kremlin é uma das nossas prioridades. E eu quero aproveitar esta oportunidade para informá-lo que nós temos a tecnologia para ouvir conversas telefônicas de Vladimir Putin e outros membros do governo russo.

 Mas,  precisamos da sua permissão para continuar. Eu sei que é complicado porque você disse que a melhoria das relações entre a Alemanha e a Rússia é uma prioridade nacional. Mas, saber que o Putin está dizendo e com quem, também é importante:  você, Merkel, autorizaria isso?

   O debate internacional provocado pelo vazamento de informações por Edward Snowden e a revelação de que os espiões do governo dos EUA escutam as  conversas de Merkel e outros 35 chefes de Estado, e que obtém as informações de milhões de cidadãos em todo o mundo é saudável e desejável. Um dos aspectos mais polêmicos é que os EUA espiem seus próprios aliados. Mas este debate só será útil se for realista, e para ser realista, é bom ter em mente as palavras de Lord Palmerston, o estadista britânico e o primeiro-ministro nos  meados do século XIX: “A Inglaterra não tem amigos eternos, nem inimigos perpétuos. Inglaterra tem apenas interesses que são eternos e perpétuos.”

    Essa afirmação não era somente   verdadeira apenas para a Inglaterra do século XIX. Ela permanece verdadeira também nos dias atuais: países não têm amigos, têm interesses. Pode ser uma verdade desagradável, mas ignorá-la não a fará  menos real.

Desafio da esquerda europeia

       O divórcio entre a vontade popular e o exercício  se transformou numa característica de definição da situação política em boa parte dos países da União Européia.

      Os resultados das diversas consultas eleitorais e de diferentes estudos de opinião  revelam  até que ponto o cidadão perdeu a confiança e não se identificam mais com os governos que fazem o contrário do que se comprometaram desenvolvendo políticas que originam  mal estar social,  geram uma massa de desempregados, aumento da desigualdade social e a perda de direitos. A consequência é que os cidadãos não se sentem representados e sim, afastados dos seus governos e de suas decisões.

     O crescente descrédito e a desconfiança da população  diante da política e dos políticos é um fenômeno com caráter transversal que afeta os principais partidos de cada sistema político, independente das suas ideologias. Os governos de diferentes cores ideológicas somente têm uma resposta possível para a sociedade: a austeridade.

    Nos países periféricos da UE o processo implica na progressiva destruição do acervo social construído a partir da Segunda Guerra Mundial. A Europa está perdendo peso econômico e relevância política no cenário internacional.

      O dilema hoje é avançar por uma Federação, ou assistir à quebra da União e o declínio da Europa e do seu povo. Somente a cegueira pode levar crer  à Alemanha,  seus aliados do norte, e seus sócios fiéis dos governos do Sul da Europa que a competitividade perdida se pode restaurar com uma selvagem desvalorização econômica e social.

      Nem o mercado nem a direita são cegos. Seus interesses e ideologias coincidem: acreditam que quanto menos Estado melhor; quanto menos regulação e intervenção pública, melhor; quantos menos impostos, melhor. Estão em seu direito e o exercem de fato. Essa é a Europa da Alemanha de Merkel.

       O que resulta dramático é o papel da esquerda, e em particular a social democracia europeia, prisioneira dentro das suas respectivas fronteiras de Estado Nação, diminuídas entre as muralhas de partidos cada vez mais dominados por burocratas profissionais da política, que permanecem afastados de novas demandas e mudanças sociais. Incapazes de propor e liderar um programa comum de reformas e renovação do projeto europeu em um mundo em que a resposta, ou é europeia, ou não será.

       A viabilidade do projeto supõe um elevado grau de mobilização da sociedade civil, que sem mínima  dúvida irá requerer como condição prévia  a disposição em se  comprometer com uma outra forma de fazer política.