De mudança

Este breve texto que escrevo é uma despedida e, ao mesmo tempo, uma inauguração.

A despedida, é do condomínio de blogs do Sul 21. Me despeço também agradecendo muito pelo espaço à minha disposição nestes últimos dois anos, o qual aumentou a visibilidade do Cão. O blog deixa de estar vinculado ao Sul 21, mas continuará tendo-o como importantíssima referência, graças à qualidade e à credibilidade de seu trabalho.

A inauguração, portanto, é da nova “casinha” do Cão. A aquisição de um domínio próprio era algo que eu já pensava em fazer antes do convite para levar o blog para o Sul 21; passados dois anos, decidi pela “casinha própria”. Agora, o Cão Uivador passa a ser caouivador.com: atualizem seus links.

Quanto ao ritmo das postagens no novo endereço, não haverá alterações. Será como avisei no dia do aniversário do Cão: não prometo atualizações diárias, que evitem um longo tempo sem novos textos. Melhor mesmo é acompanhar o blog, inclusive curtindo sua página no Facebook – ainda mais que, dependendo de como a rede ficar nos próximos meses, talvez seja necessário acessá-la o mínimo possível para manter minha sanidade mental. Assim, para quem curte o que costumo postar no FB, acompanhar o Cão é uma ótima pedida.

Sete anos de Cão Uivador

O dia poderia ter passado despercebido, ainda mais se considerarmos as poucas atualizações nos últimos meses: apenas nove nos últimos três meses. O Cão Uivador esteve próximo do fim nesse tempo: considerei seriamente a possibilidade de escrever um texto de despedida, para depois me preocupar apenas em postar no Facebook. Aliás, houve quem me dissesse (aliás, ainda há) que blog é perda de tempo, e blá blá blá. Quase me convenceram. Quase.

Em geral, a cada 14 de maio faço alguns comentários que invariavelmente terminam em agradecimento aos leitores. Afinal, o que motivaria um blog a se manter ativo por sete anos? Sem ninguém que o lesse, talvez o Cão sequer tivesse chegado em 2008. Para quem escreve, nada é mais desmotivador do que não ter leitores, por isso, faço questão de agradecer a quem ainda clica nos links, saindo um pouco do Facebook e vindo aqui.

Pois o que me desmotivou foi, sem dúvida alguma, constatar que cada texto aqui publicado, seria mais lido e repercutiria mais se fosse postado diretamente no Facebook. Não quero simplesmente atacar a rede social, pois ela também ajuda o Cão a ser mais lido, já que postando links lá o blog “atinge” mais pessoas. Mas também parece haver um crescimento da preguiça: em geral, ninguém tem muita paciência de ler um texto muito longo. E pior ainda, dificilmente clica em links que levem para fora do FB. Sem contar que, no tocante à discussão do que é postado aqui, já faz mais tempo ainda que ela não se dá no blog, mas sim nos links publicados no Facebook.

Ao perceber a aproximação do sétimo aniversário do Cão, decidi que não podia deixá-lo parado neste dia. Quem sabe o 14 de maio poderia servir de motivação para sua retomada, tentar voltar ao ritmo anterior, de atualizações que não deixam o blog parado por um longo tempo. Porém, decidi não fazer promessas cujo cumprimento não posso garantir. Mas uma decisão está tomada: o Cão não acaba. Segue firme. Pode não ser com frequentes atualizações como até o início do ano, mas continua vivo.

E aos amigos que geralmente curtem o que posto no Facebook, deixo uma dica: acompanhem o blog – que inclusive tem uma página no FB. Até porque considero seriamente a possibilidade de “tirar umas férias” da rede social durante a campanha eleitoral, que tem tudo para ser insuportável este ano: minha presença lá se resumiria a postar links do Cão (até porque teria de manter atualizada a página do blog).

Falta muito?

Criança viajando sempre é ansiosa. Entra no ônibus, no carro, no avião, louca para chegar ao destino. Tanto que depois de um tempo, começa a perguntar, toda hora, se falta muito para chegar. Afinal, já viajamos tanto que certamente já estamos chegando. Mas não, o destino ainda está longe.

Com o tempo, aprendemos a apreciar o trajeto, as paisagens que nos separam do lugar para onde vamos. Inclusive, em uma das tantas máximas que usam viagem como exemplo, dizem que a felicidade não é nosso destino, mas sim o caminho. Afinal de contas, quem vive em busca da felicidade, obviamente não tem uma vida feliz – e provavelmente nunca terá.

Isso não significa que aprender a apreciar o caminho torne qualquer viagem boa. Pois saber que o destino é ruim faz com que o trajeto até ele torne-se também ruim. Dá vontade de ir para outro lugar, ou de voltar ao ponto de onde saímos.

Pois é mais ou menos essa sensação que tenho no Brasil de hoje. Vivemos dias de muito ódio, muita raiva, muita mentira. Inventam imbecilidades do tipo “PT vai dar um golpe comunista” (Karl Marx, aniversariante de hoje, dá um duplo twist carpado no túmulo toda vez que alguém curte ou compartilha essa merda), ou difundem absurdos sobre programas sociais e seus beneficiários, reproduzidas constantemente por gente que tem preguiça de fazer uma rápida pesquisa no Google. Um boato de Facebook se espalha, vira “verdade”, e pessoas são linchadas até a morte por conta disso. E isso que a campanha eleitoral ainda não começou: 2010 é brincadeira de criança perto do que se verá neste ano.

Pior é abrir o Facebook e dar de cara com essas coisas. Farei logo a mais ampla seleção de contatos desde que criei minha conta lá, de modo a manter apenas o que vale a pena. Afinal, tenho o direito de não visualizar manifestações do quão maldosa pode ser a espécie humana. Porém, sei que isso equivale apenas a fechar a cortina do ônibus para não enxergar a paisagem que se encontra no lado de fora da janela: ela continua lá, e seguimos viajando.

O destino dessa viagem? A barbárie.

Será que falta muito? Há algum retorno antes de chegarmos lá?

Dia do Goleiro

manga

Hoje, 26 de abril, é comemorado o Dia do Goleiro. A escolha da data é uma homenagem ao goleiro Manga, um dos maiores da história do futebol brasileiro. Sua carreira foi vitoriosa e também longeva.

Nascido no Recife a 26 de abril de 1937, Haílton Corrêa de Arruda iniciou sua carreira no Sport, onde profissionalizou-se em 1955. Sua primeira taça como titular foi o Campeonato Pernambucano de 1958.

No ano seguinte, Manga foi para o Botafogo, onde jogou por 10 anos e tornou-se ídolo, sendo considerado um dos maiores goleiros da história do clube. Em 1966, foi convocado para disputar a Copa do Mundo na Inglaterra, mas a má campanha do Brasil (eliminado na primeira fase) acabou por abreviar sua carreira na Seleção Brasileira.

Após sair do Botafogo, foi jogar no Nacional do Uruguai, onde também foi idolatrado. Deixou o clube uruguaio em 1974, mas o final de sua carreira ainda estava longe: foi jogar no Internacional, onde foi bicampeão brasileiro em 1976, aos 39 anos de idade. Na sequência jogou no Operário de Campo Grande (ajudando o clube a alcançar o 3º lugar no Campeonato Brasileiro de 1977, um feito histórico) e no Coritiba, até que em 1979 foi contratado pelo Grêmio, fato marcante não apenas por conta da idade de Manga (42 anos): os dois principais clubes do Rio Grande do Sul mantinham até então um acordo não-escrito segundo o qual não seriam contratados jogadores que já tivessem atuado pelo rival; coube a Manga quebrar a escrita. Pelo Tricolor, Manga conquistou o título gaúcho de 1979.

Do Grêmio, Manga transferiu-se para o último clube de sua carreira: o Barcelona de Guayaquil, onde conquistou o título equatoriano de 1981, aos 44 anos de idade. Após parar de jogar, Manga tornou-se treinador de goleiros, e por dois anos foi uma espécie de “embaixador” do Inter para obter novos sócios. Atualmente, vive no Equador com a família.

————

Já que o dia é deles, não custa nada lembrar alguns outros goleiros que marcaram época. Um deles é Barbosa, titular do Brasil na Copa de 1950 e que foi considerado o melhor do Mundial, mas que ficou injustamente marcado pela derrota brasileira diante do Uruguai na decisão.

barbosa

E como esquecer do colombiano René Higuita? Pode não ter sido o maior goleiro de todos os tempos, mas seu estilo “maluco” de jogar o tornou ídolo na Colômbia e em especial no Nacional de Medellín, clube no qual ganhou seus principais títulos – dentre eles a Taça Libertadores da América de 1989, primeira conquista internacional do futebol colombiano.

Na semifinal da Libertadores de 1995, Higuita marcou um gol de falta que acabaria se mostrando decisivo: foi o da vitória do Nacional por 1 a 0 contra o River Plate na partida de ida, disputada em Medellín. Em Buenos Aires o River devolveu o 1 a 0 mas nos pênaltis deu Nacional, que se classificou para a decisão perdida contra o Grêmio.

Imagem de Amostra do You Tube

Meses depois, Higuita fez a incrível “defesa do escorpião” em pleno Estádio de Wembley, no amistoso entre Inglaterra e Colômbia. O que certamente deve ter resultado em muitos gols em peladas, pois não faltou guri jogando no gol que tentou imitar o goleiro colombiano…

Imagem de Amostra do You Tube

Olá, marcianos

Foto1630

Revista Galileu, abril de 1999

Achei a revista acima fazendo uma “limpa” nas minhas coisas, por conta da pintura aqui em casa (como os móveis terão de ser afastados, deixá-los mais leves retirando o que tinham dentro foi necessário). Na hora me chamou a atenção, não só pela capa, como também pelo fato de que eu guardava essa revista havia 15 anos e provavelmente não a tinha lido mais desde que a recebera. Tanto que ela estava guardada junto com várias outras numa pilha abaixo de um gaveteiro no guarda-roupa, praticamente esquecida.

Tento imaginar como reagi à matéria de capa quando recebi a revista. Será que acreditei que em 15 anos o homem estaria chegando a Marte? Terei achado exagerada? É difícil, justamente porque tinha esquecido da existência de tal revista. Mas é certo que, como naquela época ainda faltava muito para 2014, certamente muitas pessoas acreditaram que hoje estaríamos começando a colonização de Marte.

Entender e explicar o passado é algo complicado: em geral, tendemos a enxergar os acontecimentos pretéritos de maneira “contaminada” pela visão de mundo que temos no presente; daí a necessidade de especialistas no assunto – leia-se “historiadores”. Em 14 de julho de 1789, por exemplo, a massa que tomou a Bastilha não tinha ideia de que tal fato marcaria o início do que chamamos “Idade Contemporânea”: tal definição foi dada a posteriori, por historiadores mais distanciados do fato; agora, acreditar que quem ajudou a tomar a Bastilha sabia que aquilo seria tão significativo em termos históricos consiste no pior erro que pode cometer um historiador, o chamado anacronismo (analisar os acontecimentos de uma época por meio de valores pertencentes a outra época).

Se explicar o que já aconteceu é difícil, o que dizer daquilo que jamais ocorreu? O futuro, tempo que virá, é terreno fértil para especulações. Eis, aliás, uma das únicas certezas sobre ele: sempre procuraremos prevê-lo, com base em dados cientificos, vontades ou mero misticismo. Quanto mais tempo faltar para a época que queremos imaginar, maior será o leque de possibilidades. E a maioria esmagadora delas, claro, não se realiza.

O que leva tantas previsões a não se concretizarem é uma espécie de “anacronismo”, só que diferente daquele cometido quanto aos fatos do passado. É que também enxergamos o futuro com nossa visão “contaminada” pelos valores que temos na época que fazemos a previsão.

No final dos anos 80 e início dos 90 eu ainda acreditava que os carros voariam no ano 2000 (obrigado, Jetsons), assim como em 1999 havia quem acreditasse que em 2014 estaríamos mandando foguetes tripulados a Marte. Em 1999 também procurava traçar o “roteiro” de minha vida nos anos que viriam: em 2000 ingressaria na faculdade (que ainda nem sabia qual seria), me formaria ali por 2003 ou 2004; acreditava que por volta de 2006 casaria, e logo depois teria filhos…

Nada disso aconteceu: por enquanto, só usamos o verbo “voar” nos referindo a carros quando seus motoristas correm desesperadamente; e a chegada de seres humanos a Marte atualmente está prevista para 2025 (mas não nos surpreendamos se chegarmos a 2029 – 30 anos após aquela capa da Galileu – sem termos pessoas em Marte). Quanto ao “roteiro” de minha vida que traçava naquela época, um dos raros acertos foi quanto ao ingresso na faculdade em 2000 (num curso que largaria em 2002). E hoje em dia não penso em casar, tampouco em ter filhos.

Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça

Foto1596

No telão, João Goulart (presidente deposto pelo golpe de 1964) e Amarildo de Souza (desaparecido e morto pela PM-RJ, em 2013)

Ontem à noite, o Salão de Atos da UFRGS ficou abarrotado, no ato “50 anos do golpe de 1964, 50 anos de impunidade”, em homenagem a todos os que lutaram contra a ditadura civil-militar no Brasil. Por mais que se saiba que ainda há muito a fazer em termos de memória no nosso país, ver um recinto com capacidade superior a mil pessoas ter sua lotação máxima superada num evento que busca “descomemorar” o golpe ajuda a dar mais esperanças de que ainda será feita Justiça no Brasil.

Imagem de Amostra do You Tube

HOJE a ditadura maldita faz 50 anos. Nada de dia 31 de março ou coisa do tipo – que os que traíram o povo e a nação a quem dizem servir carreguem a vergonha completa, inclusive da data ridiculamente adequada que escolheram para nos roubar a democracia.

Nesta data, dou a eles o que merecem: desprezo.

Nunca mais voltarão, infames. Que carreguem para o túmulo o peso da vergonha que cometeram e pela qual jamais se retrataram. Adeus.

(Igor Natusch, via Facebook)

Plenário vira as costas para Jair Bolsonaro, e sessão em memória dos 50 anos do golpe é suspensa (sendo que o regimento interno da Câmara não proíbe ninguém de virar as costas ao orador).

Plenário vira as costas para Jair Bolsonaro, e sessão em memória dos 50 anos do golpe é suspensa (sendo que o regimento interno da Câmara dos Deputados não proíbe ninguém de virar as costas ao orador). Foto: Antonio Augusto/Câmara dos Deputados

O Imposto de Renda

Começa a época da declaração do Imposto de Renda, e com ela o “mimimi” contra a “fúria arrecadatória”. “ESSE LULLA E ESSA DILMA SÓ NOS COBRAM IMPOSTOS, CHEGA DE TANTO IMPOSTO!!!111!!!”, brada revoltado o “cidadão de bem”.

Porém, sinto muito informá-lo de que o Imposto de Renda começou a ser cobrado no Brasil em 1922, quando Lula e Dilma sequer estavam nos planos de suas respectivas famílias (o pai de Dilma, para se ter uma ideia, ainda morava na Bulgária). Naquele ano, em que se celebrava o centenário da Independência, houve também troca de governo: no dia 15 de novembro, Epitácio Pessoa foi sucedido por Artur Bernardes na presidência. Se o “cidadão de bem” quiser reclamar deles, vá em frente, mas é uma boa ideia descobrir uma maneira de se comunicar com os mortos para que eles possam ouvir as queixas: Epitácio Pessoa faleceu a 13 de fevereiro de 1942, e Artur Bernardes não está mais entre nós desde 23 de março de 1955.

“MAS A ALÍQUOTA ATUAL É COISA DESSES PETRALHAS!!!11!”, continua reclamando o “cidadão de bem”. Em primeiro lugar, é uma boa ideia conhecer as regras quanto à obrigatoriedade da declaração: como não vale a pena copiar todas para cá, nada melhor do que ir direto à Receita Federal. Lembrem também que sempre podemos incluir na declaração despesas com saúde, educação etc., o que muitas vezes resulta na restituição de valores retidos na fonte – ou seja, descontados quando recebemos nosso contracheque.

Além disso, reparemos próprio nome do imposto: “de renda”. Logo, é cobrado sobre a renda, sobre o que ganhamos. Quanto mais dinheiro recebemos, mais pagamos – portanto, é um dos impostos mais justos que existem. Para ficar livre dele, só existem duas possibilidades.

A primeira, é ter recebido no ano passado menos do que a quantia que torna obrigatória a declaração. Ou seja, uma boa dica para quem quer se ver livre da declaração é ganhar mal. Que tal?

Outra possibilidade é simplesmente não pagar, ou seja, sonegar o imposto. Mas é bom lembrar que sonegação fiscal é crime, e que se os tais “justiceiros” atualmente na moda decidirem ser coerentes, lincharão qualquer criminoso sem levarem em conta a cor da pele ou o extrato bancário.